Bateria eletrônica ou acústica em apartamento
Você coloca o fone, o módulo toca só para você, e mesmo assim o vizinho de baixo bate no teto. Isso acontece todo dia e não é culpa do fone. É que existem dois barulhos diferentes saindo de uma bateria, e o fone só cuida de um deles.
O primeiro é o ruído aéreo: o som que nasce no instrumento, viaja pelo ar do cômodo e escapa por porta, janela e fresta. O segundo é o ruído de impacto: a batida que vira vibração na estrutura do prédio, desce pela laje e reaparece no apartamento de baixo como pancada seca. Pele de malha e fone atacam o primeiro. O pedal de bumbo alimenta o segundo, e ele atravessa concreto sem pedir licença.
Este guia usa só o que fabricante e norma publicam. Entre os cinco fabricantes de bateria eletrônica consultados, Roland, Yamaha, Alesis, Donner e Medeli, apenas um publica um percentual de redução, e é um ensaio feito pela própria empresa. Os outros quatro descrevem o produto com adjetivo: silencioso, discreto, adequado para apartamento. Nenhum dos cinco publica decibel. Onde o número não existe, o texto diz que não existe.
Passo a passo
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Separe ruído aéreo de ruído de impacto antes de comprar qualquer coisa
Ruído aéreo é o que se propaga pelo ar e precisa de uma abertura ou de uma superfície leve para passar. Fone resolve porque o som passa a nascer dentro da concha, perto do seu ouvido, em vez de encher o cômodo. Ruído de impacto é outra física: a energia da batida entra direto no piso, o concreto conduz essa vibração com pouquíssima perda e o teto do vizinho volta a irradiar som lá embaixo. Quem mora em prédio e reclama de bateria quase sempre está reclamando disso, não do timbre. Por isso a pergunta útil não é qual kit faz menos barulho, e sim o que está entre o seu pé e a laje.
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Pele de malha ou superfície de borracha: o que muda no barulho mecânico
Malha é uma tela tensionada sobre o aro, e borracha é uma superfície maciça. A Roland afirma que as peles de malha dela são os pads eletrônicos mais silenciosos disponíveis, e que a tensão se ajusta com chave de afinação para chegar perto da tensão de uma pele acústica. A Yamaha tomou outro caminho e usa silicone celular texturizado, o TCS, cheio de bolhas internas que amortecem o golpe da baqueta; a marca descreve o nível de som e vibração como muito baixo e não publica número. Na linha Quiet Design, a Roland combina as duas ideias: malha por cima, inserto de borracha em favo por baixo e respiros no fundo do pad para aliviar a pressão de ar. Nada disso é conversa de timbre, é o barulho mecânico do choque baqueta contra superfície, que existe com o módulo desligado. Alesis, Donner e Medeli também montam kits de malha, e as três descrevem o benefício por adjetivo, sem publicar medida.
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O pedal de bumbo é o problema que sobra
A Roland escreve no próprio material que, seja qual for o kit, pisar no pedal de bumbo e no de chimbau produz vibração através do piso. Essa frase é o resumo deste guia. A resposta comercial dela é a linha Noise Eater: o NE-10 é uma placa que vai embaixo do pedal, com pés de borracha ocos, e a ficha publica 210 mm de largura, 540 mm de profundidade, 30 mm de altura e 2,8 kg; o NE-1 é um pé isolante de 70 mm por 70 mm por 32 mm e 110 g, para colocar sob as pernas do bumbo e da estante de chimbau. A Roland declara redução de cerca de 75% do ruído e da vibração transmitidos ao piso com esses acessórios, e deixa claro que o ensaio é da própria empresa. Na linha Quiet Design a mesma solução virou parte do kit, com bases dedicadas para os dois pedais, quadro flutuante no pad de bumbo, pés de borracha hemisféricos nas estantes e um batedor de cabeça arredondada. Nenhum outro fabricante consultado publica número equivalente.
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Monte o kit pensando na laje, não no cômodo
O que interrompe ruído de impacto é descontinuidade, não espessura. Tapete grosso ajuda a segurar o som no ar e amortece pouca coisa do que entra na estrutura, porque continua sendo um caminho contínuo até o concreto. O arranjo que funciona é uma plataforma com massa por cima e elemento elástico por baixo, apoiada em isoladores e sem encostar em parede nenhuma. Coloque isolador sob cada ponto que toca o chão, e não só sob o bumbo: perna de rack, estante de chimbau, pedal e até a banqueta transmitem. Batedor de cabeça macia entrega menos energia de choque que batedor de plástico duro, e é por isso que a Roland embarca um batedor próprio no kit silencioso. Na hora de posicionar, afaste o conjunto da parede que divide com o vizinho e evite prender ou encostar o rack nela, porque parede compartilhada conduz vibração tão bem quanto a laje.
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Bateria acústica com pele de estudo abafa o ar e deixa o impacto igual
Dá para reduzir muito o som aéreo de uma bateria acústica sem trocar de instrumento. A Remo vende a Silentstroke, pele de malha de uma camada para estudo em volume baixo. A D'Addario anuncia a linha Evans dB One, com malha ShockWeave, camada de espuma e reforço no ponto de ataque, em torno de 20% do volume de uma pele comum. A Zildjian anuncia os pratos L80, furados e em liga própria, como até 80% mais silenciosos que um prato tradicional. Repare no que esses três números têm em comum: todos falam de volume no ar, todos são declaração de fabricante e nenhum menciona vibração estrutural. O pedal do bumbo segue funcionando do mesmo jeito, o batedor continua batendo e a energia continua descendo pelas pernas do bumbo até o piso. Abafador de borracha sobre a pele faz exatamente a mesma troca: corta o ar, mantém o impacto.
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Consulte a norma certa e a convenção do seu prédio
No Brasil há duas referências técnicas que valem a pena conhecer antes de qualquer discussão. A ABNT NBR 10151 trata da medição e da avaliação de níveis de pressão sonora em áreas habitadas: é o procedimento que um laudo acústico segue. A ABNT NBR 15575 é a norma de desempenho de edificações habitacionais, e a parte dedicada a sistemas de pisos avalia tanto ruído aéreo quanto ruído de impacto, com níveis de desempenho mínimo, intermediário e superior; o ensaio de impacto emprega uma máquina de impacto padronizada no pavimento de cima e captação no ambiente de baixo. As duas já passaram por revisão e emenda, então confira a edição em vigor no catálogo da ABNT antes de citar ano ou valor. Convenção de condomínio é assunto separado e não sai de norma técnica: horário permitido, limite e procedimento de reclamação mudam de prédio para prédio, e o único documento que vale para você é o do seu condomínio.
Dicas
- Faça um diagnóstico antes de gastar. Peça a quem mora embaixo para ficar em casa enquanto você toca somente o pedal de bumbo, com o módulo desligado e sem fone. Se chegar pancada lá embaixo, o seu problema é impacto, e fone novo não muda nada.
- Isole tudo que toca o chão, não só o bumbo. Estante de chimbau, pernas do rack e banqueta também entram na laje, e um único ponto rígido devolve boa parte do que você isolou nos outros.
- Quando a ficha só traz adjetivo, e é o caso da maioria, trate a promessa de silêncio como argumento de venda e planeje o isolamento por fora do kit.
- Prédio antigo costuma ter laje mais fina que prédio entregue sob a norma de desempenho. Se o seu é dos antigos, conte com mais transmissão e menos tolerância.
- Guarde a nota fiscal do que você comprou de isolamento e o texto da convenção. Se a conversa com a administração azedar, documento pesa mais do que boa vontade.
Erros comuns a evitar
- Achar que fone resolve tudo. Ele corta o caminho aéreo até o seu ouvido e até o corredor, e não encosta na vibração que sai do pedal para a estrutura.
- Trocar de kit antes de tratar o piso. Sair de superfície de borracha para pele de malha reduz o barulho da baqueta e deixa o impacto do pé exatamente onde estava.
- Empilhar tapete e chamar aquilo de isolamento. Sem elemento elástico e sem massa, falta a descontinuidade que interrompe a transmissão pela laje.
- Ler percentual de redução de volume como se fosse redução de incômodo no andar de baixo. Os números publicados por fabricantes de pele e de prato de estudo tratam de som no ar.
- Encostar o kit na parede que divide com o vizinho, ou pior, prender o rack nela. Parede compartilhada conduz vibração com a mesma eficiência do piso.
- Citar norma de cabeça, pelo ano que você lembra. Tanto a NBR 10151 quanto a NBR 15575 passaram por atualização, e citar edição vencida derruba a sua própria reclamação.
Perguntas frequentes
Bateria eletrônica faz barulho mesmo com fone?
Faz. O que o fone resolve é a saída do módulo. Continua existindo o barulho mecânico da baqueta batendo na superfície do pad e, principalmente, a vibração dos pedais chegando ao piso. A Roland descreve esse segundo problema no próprio material de conteúdo e vende acessórios de isolamento justamente por causa dele.
Pele de malha é mais silenciosa que pad de borracha?
No barulho da batida, sim, é o que a Roland afirma sobre as peles de malha da marca. A Yamaha usa silicone celular texturizado com bolhas internas e também fala em nível baixo. Nenhuma das duas publica decibel, e em nenhum dos dois casos o pedal deixa de ser o ponto crítico.
Quanto um isolador de pedal reduz de verdade?
A Roland declara cerca de 75% de redução do ruído e da vibração que chegam ao piso com a linha Noise Eater, em ensaio da própria empresa. Esse é o único percentual desse tipo entre os cinco fabricantes de bateria eletrônica consultados, e não há medida independente publicada para comparar.
Dá para usar bateria acústica em apartamento com pele de estudo?
Dá para baixar bastante o som no ar. A D'Addario anuncia a linha Evans dB One em torno de 20% do volume de uma pele comum e a Zildjian anuncia os pratos L80 como até 80% mais silenciosos que um prato tradicional. Nenhum desses números fala do impacto do bumbo na laje, que costuma ser a origem real da reclamação do vizinho de baixo.
Existe lei que diga em que horário posso tocar?
Norma técnica não cumpre esse papel. A NBR 10151 descreve como se avalia nível de pressão sonora em área habitada e a NBR 15575 fixa desempenho de edificação, inclusive de piso para ruído de impacto. Horário e conduta saem de lei municipal e da convenção do seu condomínio, e esse texto varia de um edifício para outro. Leia o seu antes de assumir qualquer regra.
Conclusão
Para quem mora em prédio, bateria eletrônica com pele de malha é o caminho mais curto, e o fone completa o serviço no que diz respeito ao som que anda pelo ar. Só que isso cobre metade do problema.
A metade que sobra está no pé. Plataforma com massa e elemento elástico, isolador sob cada apoio que toca o chão, batedor de cabeça macia e o kit longe da parede compartilhada: é aí que o vizinho de baixo percebe diferença. Um único fabricante entre os cinco consultados publica quanto essa camada reduz, e o número é dele, obtido em ensaio próprio.
Antes de qualquer conversa com o síndico, leia a convenção do seu condomínio e confira a edição vigente das normas no catálogo da ABNT. Bateria em apartamento é um problema de estrutura, e discussão de condomínio se resolve com documento na mão.
Redação Villa-Lobos
Time que escreve o Villa-Lobos. Partimos da ficha que o fabricante publica sobre cada instrumento e a comparamos com o relato de quem já comprou, para dizer a quem serve cada modelo e o que muda quando o músico passa do primeiro instrumento para o segundo.
Como a Redação trabalhaAtualizado em 22/set
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